A sociedade "líquida moderna" está sem margens, sem formas, essa sociedade que se faz escorrer entre os vãos dos dedos das próprias mãos, impedindo o consolidar de valores, hábitos, sonhos, identidades, conhecimento, habilidades, capacidades, enfim, a vida, agora é espontaneamente fluída. O maior talento do personagem afetivo, social, moral e cultural que desenha essa "vida líquida" defini-se por sua engenhosidade no improviso.
Incerta, incoerente, caótica, a "vida líquida" exige dos sujeitos um exímio senso criativo para "recomeçar" antes mesmo de "terminar". O prazer da apreciação está no degustar do tão esperado "término" e não no alcançar do "desejado", e portanto o impulso para ganhar velocidade é referido ao encontro do tão esperado e certo "fim". Nessa narrativa que coleciona incansáveis "reinícios" típica da "vida líquida", as regras são nítidas: superar é saudável, desistir e substituir é legítimo; por esse motivo, o que é descartado precisa ser brevemente retirado, para dar espaço ao lixo que ainda está por vir, pois é certo que ele virá, viabilizando assim o itinerário da vida fluída. Essa logística líquida impõem-se para que não deixe nada e nem ninguém enraizar e aderir a qualquer lugar, coisa ou ser, pois é preciso modernizar, dessa forma as conexões e os vínculos tem de ser suaves e efêmeros.
Obviamente têm vantagem nessa corrida os que podem pagar uma portabilidade de si e dos seus haveres. Para garantir que esses organismos socais líquidos respirem o ar denso do modernismo é preciso incutí-los de uma indiferença ao sustentável, de uma disposição para demolir o feito, de uma condescendência frente ao ruir, de uma fé no caos, de uma imunidade à desorientação. É preciso destreza para “libertar-se”, numa sociedade em que estar liberto é estar solto o suficiente para deslizar e não ser surpreendido pelo poder dos afetos, saber deixar ir e saber ir, mais do que isso , saber perdoar aqueles que não se deixam escapar das amarras condicionantes e densas do afeto. É necessário ser leve, para deixar-se desobstruído para realizar o potencial de “vir a ser o que não se é” e em seguida poder novamente descartar-se, para isso é importante saber despir-se da antiga identidade sempre que necessário.
A "vida líquida" é um abismo em que raramente as personagens conseguiriam encontrar a coragem quase suicida para despregar-se da incontestável dinâmica, somente os suficientemente descontentes conseguiriam encontrar determinação para ir contra essa tirania, que fisga pela habilidade audaciosa de manusear a vulnerabilidade humana em seu desejo por pertencimento, pois o custo da exclusão é de imensurável violência.
A identidade que sobra desse coexistir líquido não pode estar com as amarras que prendem seus fragmentos nem muito frouxas e nem muito apertadas, de tal forma que seja possível desfazer-se com velocidade de um estilo que não sobreviva à próxima transição e ao mesmo tempo abrir novos caminhos de fuga nessa trama existência.
Deserdado, sem pátria, traído o que resta a esse personagem flutuante da vida líquida é individualizar-se radicalmente e curar-se do delírio utópico, ideológico e falido do comunismo... tudo isso aqui e agora, apenas o presente permanece, agilidade e imediatismo permitem-no desfazer-se da idéia de uma salvação eterna sem abrir mão do imaginado paraíso da eternidade. Não perder-se em memórias, não contabilizar ganhos e perdas, estar sempre renascendo, garante a experiência da infinitude em uma existência mortal. Não são necessários mais especialistas em reformar infelicidade, não é necessário mais desesperar-se na busca de ser feliz e suficientemente jovem, pois caso todas as magias não sejam eficientes ainda é possível voltar-se ao entorpecimento, que traz um passaporte imediato para um passeio turístico ao bem estar da eternidade, sem o risco de não encontrar a passagem de volta para casa, afinal caso não se queira lá morar, existem outras drogas para trazer-nos de volta.
Para não perder-se no mundo líquido é preciso esquecer-se da virtude da lealdade, porque essa faz estagnar, fidelidade ao próprio pensamento só promete desatualização de si, o primordial agora é manter um estado de vigilância, isso sim é elegância moderna. É preciso estar alerta para desfazer-se de seus lixos a tempo de não ser confundido com ele e conseqüentemente ser descartado, porque agora o consumidor é o próprio objeto de consumo. Essa confusão é que determinará e rotulará o estilo que será medido e pesado para avaliar se é aceitável e útil. O medo de descarte faz crescer o desejo e a falta, a falta faz dispor-se a qualquer preço para estancar a angústia gritante de que algo está errado, esse possível alívio faz o personagem social líquido anular-se e dispor-se a uma escravidão mascarada.
Caso exista o milagre de frear essa insana vida líquida ele mora na auto-crítica, dirigir-se para dentro é a única forma de não ser engolido pelo externo saqueado. É a desatenção na vida compartilhada que amplia o fracasso da negociação das situações que alimentam a fluidez hemorrágica dos valores sustentáveis. Mercantilizar o processo de despertar é dar mais fôlego ao processo de descongelamento da vida moderna. Caso a esperança exista, ela mora na desestabilização do personagem desse teatro da "vida líquida", e somente reflexões desconfortáveis podem trazer uma dúvida da imagem de si mesmo, pois incitar a dúvida é perturbar as consciências para pensar a democracia como recurso de emancipação e não deixar esse senso de cidadania ser mais um motor nessa máquina fria de fabricar indignidade.
Claudia Valois
Releitura e Síntese do Livro "VIDA LÍQUIDA" do sociólogo polonês Zygmunt Bauman