31.5.11

A vida clama.....



Transpassei a cerâmica fina que você lavrou a sua volta para resistir o gélido desamparo... barro abrandado pelo seu lamento que se fez casa.... 

Se a religião dos homens céticos, com sua ácida prepotência, especula que existe sim alguma ordem na desordem, a minha impotência insistiu em  não compreender o arranjo caótico da sua morada..... Seu cenário desconcertado estava cindido pelas preces de Almirena, que pranteava Lascia ch’io pianga na sua vitrola em um volume estriduloso......

Reverenciei-me ao meu medo, me retive estável para não pisar nos seus vestidos de primavera, de flores feridas, cedidos ao chão, para que eu não fendesse meus pés nos cacos ofensivos......

Retive-me estável para não inclinar seu relicário.... para não calcar com meus pés indignamente nas suas memórias..... para não derramar a sua taça que adormecia um vinho tinto suave e um brinde desencantado.....  para não fazer voar as cinzas dos tabacos tragados por pura cólera......

Temi não reconhecer o que era descartável e o que no próprio avesso converteu-se  história.... temi alimentar-me do já perecido na geladeira que não mais resfriava.... temi devanear pelos escritos curtos renunciados em sua mesa...... temi remontar as fotos despedaçadas e ver-me dividida em um enquadre partido..... 

Não molhei a terra dos seus vasos, temi esbarrar-me nas pétalas secas e elas desfazerem-se  em pedaços, se confundindo ao pólem estéril....recusei-me atentar-me ao seu aquário, temi perceber que o lodo sufocara o beta.....

O meu medo não era desvanecer-me no seu caos..... o meu medo era que o seu caos vendasse a sua alma para que não colocasse no vir a ser algum crédito de que eu poderia sim ser o meu próprio milagre e fazer secar o sangue que tende verter do meu altruísmo..... eu temi que o seu fanatismo não te deixasse sentir que a graça e a beleza idílica mora na doce tragédia...... eu atravessei seus muros para dizer-te que a tua vida clama para ser vivida apenas nos significados da sua efemeridade......

26.4.11

Retrato de um FRENESI



Suspensa e desfalecida em um extasiar noturno, ela escapou daquele entorpecimento ainda hesitante, trouxe os seus pés de lá de dentro, mas descuidou-se e esqueceu o irrevelável despido, rodopiando bêbado e entregue a um delinear de uma singela agulha de vitrola... Sim, desbotada... pálida... desabitada... ela ouvia o irrevelável tocar em tão ensurdecedor tom, esse que invadia para além das paredes coaguladas do misterioso sonho e escorria para aquele resto desperto de efeito real...

A dor ensurdecida do irrevelável era absurda e boa - e corroía lentamente suas veias, como veneno doce. Numa dança secreta de um não-corpo, ela abria lentamente os olhos, a luz desenhava lentamente a realidade em sua retina, um som qualquer lentamente cortava a escuridão de seus ouvidos. Lentamente... lentamente... dançava, silenciosa, na beira de seus abismos.

Deslizou diligentemente os dedos nas sedas rubras e acetinadas do seu leito macio, reverenciando ao único sentido ainda não embotado pela insanidade uma cinestesia limpa que desdizia-se, convertendo-se em arrepios estremecidos... Do real ela percebia os ruído de frio, do delírio ela recebia as vibrações arrebatadoras da dúvida, do dual ressentia-se com o corrosivo irrevelável.... um elo de dimensões sacralizado pelo negro vinil que desmanchava-se em um canto gregoriano de fêmeas e mumificava por uma argila estéril a nostalgia do absoluto esquecido, devindo a ser por toda essa coreografia a arte imaculada da esquizofrenia...

De dentro da orgia inquieta dos pensamentos, permaneci calada. Olhei-a como quem olha o outro lado de um espelho, como quem seca seus monstros com o medo que só é próprio a quem é mortal. Eu nem estava ali, mas a olhei no fundo dos olhos envenenados que não me viam, já tão rubros quanto o seu leito. Mudas, continuamos o ritual deste intragável caminho: ela, à beira de seus próprios abismos; eu, espectadora silente e cruel da sua glória insensata.

Dei-me conta que o irrevelável deixou de ser a trilha sonora daquela película excêntrica, saíra da vitrola para enroscar-se em meio aos meus dedos..... a melodia guardava em suas notas o valioso enigma: Era eu uma existência efêmera que morreria quando a bela despertasse do seu devanear? Ou era eu quem a assassinaria recalcando-a em um canto qualquer da minha loucura subversiva? Era eu quem flutuava indolente pelas distâncias pantanosas da alma daquele ser? Ou era ela quem abandonava a si e assenhorava-se do meu desnudar psicotizado? 

Rendida ao improviso de existir visitei-me, deparei com a minha vigília debilitada... Não toleraria sobre o meu eu deixar sepultar a consciência de sentir-me nesse preciso aqui como um mero entusiasmo imaginário daquela mulher desatinada.... Imensurável crueldade seria deixar ela deslocar-se dos seus próprios sonhos para desmanchar-se nas minhas abstrações furtando-me a minha circunstância de ser divindade a mercê de meus caprichos.... Infortúnio maior seria descobrir que eu me reduzia ao seu espírito desencarnado..... Sim, como fantasma indigno de memória ..... Não sei... e para continuar a não saber, com força pouca, mas muito estreito, eu apertava o meu punho para não deixar sufocar e nem escapar o escorregadio e vivo som do segredo... A acústica da minha epiderme plastificada fez secar aquela música... exausta, levei-a endurecida e furei os meus olhos com o irrevelável... Assim, deixei-me esvaziar por cores não inventadas e me fiz cega e oca. Ao vazar-me renunciei-me ao milagre do belo e deitei-me como um feto amparado, esperando que as mãos da mulher louca me envolvesse e me salvasse de mim mesma.


Claudia Valois & Amanda Julieta

7.2.11

"..."



Abre aspas...
Entre as aspas o meu verbo se enfeita por um requinte tímido..
Entre o enlevo dos abraços nesses braços dessas aspas...
esvai-se o consenso vulgarizado.
Entre aspas providencio a fingir-me Picasso...
faço-me tingir a óelo e dedos
minhas premissas ilógicas, caóticas e virgens...
Fecha aspas...
Se reticências é aborto do advir a ser dito, um silêncio covarde...
três negros pontos enclausurados pelo resguardo das aspas,
já não se sujeita ao rigor do entendimento: omissão ou rendeção.
"Reticências" entre as aspas seria um outro...
um outro qualquer, um não verbo da alma sem cordas de vocalizar sentido...
"..."

10.1.11

O inefável



A voracidade da fome amansada, o repouso de pálpebras sobre um encantado devanear, o deslizar libidinal de peles que transpiram erotismo, o agasalhar-se de primavera ambiente, a homeostasia magistral...nada libertaria a alma da sua malícia por sentido... sentido... o apreço de encontrar o subjetivo harmonizador cósmico, esse mito utópico de missão existencial e individual de salvar o mundo e a si do grande mal.

Decidir-se ao amanhecer não deixar-se definhar é uma aptidão inata? É uma covardia moral?  Ou uma graça virtuosa?

Priva-te de um gozo enquanto arde o seu desejo, de um calor enquanto arde o congelar da tua pele, de um descanso enquanto arde seus olhos, de um pão enquanto arde seu apetite, priva-te de um desapertar de sapatos enquanto arde seus dedos, de um alívio enquanto arde sua alma, priva-te daquilo que te faz um incompleto insuportável para então ver-te a acusar a ti mesmo de insano... para envergonhar-te por maus tratos de si... Justifique tais maus tratos por uma ética pequena, um vínculo insensato, para enfim tornar-se indigno da estima de si...

Essa é a lógica? Ir da louça aos cacos? Para então render-se a audácia de erguer o candeeiro? Vertendo luz no subterrâneo do espírito? Uma vez que despertará a doce crueldade dos demônios colossais? Demônios que salivam a própria mediocridade...

Eu me denuncio nas minhas pendências e no duelo entre a minha vontade, o meu dever e minha alienação. Do meu zelo nesse matar ou morrer subtrairá apenas o intento e a publicação de que se eu soubesse que posso sim ser melhor que isso que estou sendo, eu já o estaria sendo...

Pecar nessa religião que urbaniza, higieniza e me faz uma cortês civil, polida e limpa é  psicotisar e perder-se na minha barbárie mais crua... do primitivo selvagem, me restaram apenas as garras...  e o ruído áspero do crescer das minhas unhas, me faz lembrar o quanto sou nociva até mesmo na minha benevolência... 

Sou isso... sou assim... uniformizada pela finitude...quando me vejo já me fiz sangrar insignificante até tornar-me trágicos pedaços... e liberta desfaleço acasalando violentamente com o inefável...

22.12.10

Vida Líquida


A sociedade "líquida moderna" está sem margens, sem formas, essa sociedade que se faz escorrer entre os vãos dos dedos das próprias mãos, impedindo o consolidar de valores, hábitos, sonhos, identidades, conhecimento, habilidades, capacidades, enfim, a vida, agora é espontaneamente fluída. O maior talento do personagem afetivo, social, moral e cultural que desenha essa "vida líquida" defini-se por sua engenhosidade no improviso.

Incerta, incoerente, caótica, a "vida líquida" exige dos sujeitos um exímio senso criativo para "recomeçar" antes mesmo de "terminar".  O prazer da apreciação está no degustar do tão esperado "término" e não no alcançar do "desejado", e portanto o impulso para ganhar velocidade é referido ao encontro do tão esperado e certo "fim". Nessa narrativa que coleciona incansáveis "reinícios" típica da "vida líquida", as regras são nítidas: superar é saudável, desistir e substituir é legítimo; por esse motivo, o que é descartado precisa ser brevemente retirado, para dar espaço ao lixo que ainda está por vir, pois é certo que ele virá, viabilizando assim o itinerário da vida fluída. Essa logística líquida impõem-se para que não deixe nada e nem ninguém enraizar e aderir a qualquer lugar, coisa ou ser, pois é preciso modernizar, dessa forma as conexões e os vínculos tem de ser suaves e efêmeros.

Obviamente têm vantagem nessa corrida os que podem pagar uma portabilidade de si e dos seus haveres. Para garantir que esses organismos socais líquidos respirem o ar denso do modernismo é preciso incutí-los de uma indiferença ao sustentável, de uma disposição para demolir o feito, de uma condescendência frente ao ruir, de uma fé no caos, de uma imunidade à desorientação. É preciso destreza para “libertar-se”, numa sociedade em que estar liberto é estar solto o suficiente para deslizar e não ser surpreendido pelo poder dos afetos, saber deixar ir e saber ir, mais do que isso , saber perdoar aqueles que não se deixam escapar das amarras condicionantes e densas do afeto. É necessário ser leve, para deixar-se desobstruído para realizar o potencial de “vir a ser o que não se é” e em seguida poder novamente descartar-se, para isso é importante saber despir-se da antiga identidade sempre que necessário.

A "vida líquida" é um abismo em que raramente as personagens conseguiriam encontrar a coragem quase suicida para despregar-se da incontestável dinâmica, somente os suficientemente descontentes conseguiriam encontrar determinação para ir contra essa tirania, que fisga pela habilidade audaciosa de manusear a vulnerabilidade humana em seu desejo por pertencimento, pois o custo  da exclusão é de imensurável violência.

A identidade que sobra desse coexistir líquido  não pode estar com as amarras que prendem seus fragmentos nem muito frouxas e nem muito apertadas, de tal forma que seja possível desfazer-se com velocidade de um estilo que não sobreviva à próxima transição e ao mesmo tempo abrir novos caminhos de fuga nessa trama existência.

Deserdado, sem pátria, traído o que resta a esse personagem flutuante da vida líquida é individualizar-se  radicalmente e curar-se do delírio utópico, ideológico e falido do comunismo... tudo isso aqui e agora, apenas o presente permanece, agilidade e imediatismo permitem-no desfazer-se da idéia de uma salvação eterna sem abrir mão do imaginado paraíso da eternidade. Não perder-se em memórias, não contabilizar ganhos e perdas, estar sempre renascendo, garante a experiência da infinitude em uma existência mortal. Não são necessários mais especialistas em reformar infelicidade, não é necessário mais desesperar-se na busca de ser feliz e suficientemente jovem, pois caso todas as magias não sejam eficientes ainda é possível voltar-se ao entorpecimento, que traz um passaporte imediato para um passeio turístico ao bem estar da eternidade, sem o risco de não encontrar a passagem de volta para casa, afinal caso não se queira lá morar, existem outras drogas para trazer-nos de volta.

Para não perder-se no mundo líquido é preciso esquecer-se da virtude da lealdade, porque essa faz estagnar, fidelidade ao próprio pensamento só promete desatualização de si, o primordial agora é manter um estado de vigilância, isso sim é elegância moderna. É preciso estar alerta para desfazer-se de seus lixos a tempo de não ser confundido com ele e conseqüentemente ser descartado, porque agora o consumidor é o próprio objeto de consumo. Essa confusão é que determinará e rotulará o estilo que será medido e pesado para avaliar se é aceitável e útil. O medo de descarte faz crescer o desejo e a falta, a falta faz dispor-se a qualquer preço para estancar a angústia gritante de que algo está errado, esse possível alívio faz o personagem social líquido anular-se e dispor-se a uma escravidão mascarada.


Caso exista o milagre de frear essa insana vida líquida  ele mora na auto-crítica, dirigir-se para dentro é a única forma de não ser engolido pelo externo saqueado. É a desatenção na vida compartilhada que amplia o fracasso da negociação das situações que alimentam a fluidez hemorrágica dos valores sustentáveis. Mercantilizar o processo de despertar é dar mais fôlego ao processo de descongelamento da vida moderna. Caso a esperança exista, ela mora na desestabilização do personagem desse teatro da "vida líquida", e somente  reflexões desconfortáveis podem trazer uma dúvida da imagem de si mesmo, pois incitar a dúvida é perturbar as consciências para pensar a democracia como recurso de emancipação e não deixar esse senso de cidadania ser mais um motor nessa máquina fria de fabricar indignidade.  

Claudia Valois

Releitura e Síntese do Livro "VIDA LÍQUIDA" do sociólogo polonês Zygmunt Bauman

20.12.10

Cianureto adocicado com algumas poucas gotas de liberdade Patética



O ocupar-me narcísico de estar aqui nesse mero corpo, nessa mera vida, é mais legítimo  em um abandonar de mim em mim mesma em meio a gemidos ensurdecedores de gozo...
é mais legítimo em meio a um encontro malicioso de lábios e línguas... 
é mais legítimo em meio a um cortejo cerimonial daquele que enterrei antes de mim... 
do que o ocupar-me tendencioso ao planear metódico do meu pensar.... 
mas, atirar-me ao abismo do inconsciente e dedicar-me a desarrumação caótica e especulativa da minha alma através de uma imperiosa inquietude, me faz desvelar o meu talento para inventar e improvisar mistérios acolhedores ao colidir-me com o muro rígido da doce e cruel ignorância... 
Nesse meu universo presumido em uma linearidade burra, permito que os convidados que deixei visitar minha alma, mais uma vez por um brinde, colocarem-se a ecoar um tilintar demorado entre taças de fino vidro... recipientes que encarceram o derramar fluído do cianureto adocicado com algumas poucas gotas de liberdade patética. Patética porque o mero corpo, a mera vida só percebe essa liberdade suicida e a faz iminente enquanto alívio desejado no momento preciso em que se está amordaçado ás bizarrices das urgências subjetivas e egoístas.  
Liberdade que declama versos de efeitos perversos com o fim de condicionar o espírito a desalojar-se dos próprios delírios, intuindo um reinventar-se por um pornográfico êxtase que faz ocultar com um véu um conceber de que somos apenas seduzíveis e não sedutores.... pois, uma vez ingerido o venenoso trago de liberdade e embriagados, mecanizados e automatizados ao princípio do prazer freudiano, o que se faz belo recusa-se a não sublimar-se arte para então converter-se em orgasmo puro... orgasmo que faz sangrar a evidência de que você será uma eterna escultura inacabada que não apreenderá em ti o desejo inteiro daquele que se diz humano e que carrega o digno direito de não resumir-se a hipocrisia que pode habitar no afeto.... 



22.5.10

O preço


Em um lugar anterior na sua alma, antes de dilacerar seus paradigmas, encontre um sentido para esse proceder que realmente valha um desembolsar de moedas de alto e precioso cunho.

27.4.10

Vício de viver


Viciei-me de vida...
Entorpeci-me de vida...
Bebi essa tal vida sem conter-me...
perdi meus sentidos...

21.3.10

O gosto ácido e útil da poeira que humaniza



Nesse hoje, me vi com minha língua estendida, lambendo o pó...
saboreando as delícias da miserável textura da poeira...
comendo os detalhes do harmonioso e apetitoso arranjo de terra seca...

Sob o triunfo de uma razão asséptica, neguei a água insípida que as almas que ali testemunhavam, com seus predicados virtuosos, dedicaram ao meu haver dilacerado...
neguei, porque sabia que os goles ingeridos e o inevitável alívio abreviariam as ranhuras nos corredores definhados e estreitos da minha garganta....
neguei, porque, inversamente, a minha saliva não se confundiria com as matizes do meu sangue endurecido....

Ali fiquei, nos braços do chão que me envolvia em violentos e macios movimentos...
ali fiquei, lamentando a doce saudade que se inclinava através do efêmero
fazendo desengasgar um pranto indiscreto, um pranto ruidoso, um pranto plástico e denso, um pranto insano e ingênuo...
um pranto de lágrimas embriagadas que violaram e hidrataram o barro duro que cobria a pele do meu espírito...

Finalmente o resquício de terra se fez lama, e escorreu pela face por um deslize medíocre... dos meus dedos fiz um pincel para delinear em meus lábios um sorriso cínico, e nele ocultei o peso insustentável do pó acomodado em meu ser...

Nesse hoje, me vi com minha língua estendida, lambendo o pó...
pó que rasgou majestosamente o encanto imaculado da expectativa da minha vaidade
romantizando a trágica arte de amar deliberadamente a imortalidade da vontade de não mais sentir vontade...
eternizando o gosto ácido e útil da poeira que humaniza, a poesia imoral do incestuoso casamento entre o instinto e o sublime vir a ser....

Nesse hoje, me vi com minha língua estendida, lambendo o pó...
pó que entulhou desencantos no meu infinito e vago querer...
poeira que corroeu meus impulsos ao repouso e ao serviçal prazer...
lama que para meu egocêntrico manifesto de não ser um nada denunciou que para existir é preciso suportar, um mínimo, a densidade da dúvida...

21.11.09

"Tudo que é imaginário tem. Existe. É... Eu, ESTAMIRA, sou a visão de cada um."


Estamira clama e dança no mundo entulhado de desperdício de Gramacho. Estamira existe, existe porque grita, grita e faz reconhecer a beleza que persiste no resto... na miséria... no descaso. Estamira é o próprio lixo, é marginal, é reciclada pelos seus delírios e alucinações artesanais... Estamira é a beira do mundo! Estamira liberta... por essa razão eu te peço: Beba Estamira... beba devagar... e Reinvente-se!

20.11.09

PRAY THE DEVIL BACK TO HELL - "Reze para o diabo voltar ao inferno"


A história de um grupo de moradoras da Libéria que se revolta em meio à guerra e enfrenta o violento e corrupto regime do presidente Charles Taylor. Por meio de uma liga que exige a paz, protesta, busca os dois lados do conflito e garante que eles comecem a negociar o fim da guerra. A união da força feminina culmina na queda do governo de Charles Taylor e a eleição de Ellen Johnson-Sirleaf, primeira mulher africana a se tornar presidente.

Consciência Trágica...


"Somos todos iguais diante da falta, do rochedo da castração, da inveja do pênis, da viscosidade da libido, do real, do gozo ou da insustentável divisão do não-ser. Deixemos, pois, a quem possa interessar, as pequenas querelas mundanas dos que procuram consolo nas ilusões sociais. Aos tolos, a busca do Santo Graal erótico; a nós, a consciência trágica, constrita, heróica e dilacerada de que a ferida da existência não tem cura!”.

Dito por alguém que desconheço... mas reconheço...

9.11.08

Não, "eu", não me faças mais serva da tolice...


Não, "Eu", não me faças mais serva da tolice...
exigo que venhas corromper o despropósito dessa minha fidelidade à percepções mecanizadas...
fidelidade equívoca que ousa discernir entre a arte do raciocínio, a arte do discurso e a arte do afeto, que atrave-se a decidir qual invenção deve resistir e qual deve falecer e ser coberto pela poeira do desprezo...

A puerícia da minha alma é de uma extensão perpétua...
induzirei-me ao erro segundo a segundo da composição do meu tempo, justificarei minha ignorância sempre que a singeleza do meu miserável saber trair a hipócrita ordem do meu universo...

A minha pouca sensatez é de tão extrema leveza e de um vazio, que não serve valer-me da modéstia para capacitar-me a partilhar significados inférteis...

Ainda assim aventuro-me a abreviar minha mediocridade...
porque em nenhum "quando" poderia negar minha capacidade de evocar minha aptidão para sentir...
Em nenhum "quando" poderia vislumbrar a minha habitação fortificada numa memória imortal e envaidecida sem com isso pesar os vetígios ordinários que colori...
se assim fosse, a minha glória consolidada esculpiria o egocentrismo de um fanstama abandonado...

Uma vez que inventei uma entrada para o enigma da minha existência, deparei-me com o meu sentido, o sentido de nutrir-me, o sentido de reconhecer essa minha materialidade inevitável, organizada e perecível. Desde então estou eternamente sujeita a tecer expressividade, para que possa destoar a imortalidade de uma memória que quando espiada através de vãos ocultos inspire assim irmãos e irmãs a ansiarem imortalizar a caridade tendenciada a luz do benefício da virtude.

4.11.08

Milagres desconexos de Fé


...Silêncio...

- Não sei o sentido que consta na sua dedicação para essa hora que está por acontecer...
- Eu pedi um milagre!
- Pediu um milagre? a sua fé contou a ti que milagres moram no divã?
- A minha fé há alguns dias se mostra pálida...

- Fale-me de milagres desconexos de fé......
- A fé surge tímida diante a tal milagre, mas não desconexa....

...silêncio...

- Não estou aqui para ouvir-me... teria como falar sem ouvir o ruído da voz que me termina?
- Sinto muito... mas penso que já faz isso habilmente há algum tempo.... por isso escolheu deixar manifestar aqui...

...silêncio...

- Estranheza revelada aos meus olhos despertos... minha alma descolou-se da minha pele na manhã do dia existido... esse foi o milagre.
- Alma? Corpo um recipiente de almas?
- Não... por favor não.... corpos não.... apenas peles.... peles isoladoras de almas...

- Alma? Autônoma? Escolhe despregar-se e assim procede?
- Assim desconhecia... conferiu de repente o meu ver.... efêmero ao nascer já condenado a finitude... o despregar foi adequado ao belo...

... silêncio ...

-A alma distraiu-se... a pele rompeu.... e foram furtados os meus caprichos....
-Caprichos subsistentes?
-Os caprichos nobres da possibilidade de não deixar o eu aos pedaços...

... silêncio...

- É vergonhoso...
- Quantifique...
- Uma vergonha apenas.... não me reconheço... percebo a minha alma descolada da minha pele.... e ao fim não me reconheço...

- Onde termina o milagre?
- O milagre permanece nas horas.... não tem término... sobrevive com o mesmo fôlego inexplicável que pede a vida e a sobrevida...

- Milagres foram construídos para beneficiar o mito...
- Diz assim, incrédulo, porque desconheces a vigilância da minha pele...
- Não penses assim... dimensiono a vigilância da sua pele ao constar o amor como milagre para a sua existência...

- Como faço? Quase inexisto... Percebo-me como poeira singela...

...Silêncio...

- A hostilidade mora comigo...
- Onde está agora?
- Surge quando sinto vontade de doar legitimidade ao amor que sinto...

...Silêncio...

- A que ação irá referir-se?
- Penso em entregar-me! Entregar-me ao trágico temor certo do amar... entregar-me para o conforto coerente da cama não vazia... entregar-me para residir na luz do colo preciso...

- O seu último minuto por direito fechou sua hora neste exato momento...

... Silêncio ...

- Desculpe, sua hora acabou...

...Silêncio...

- Eu terei de dizer novamente que sua hora acabou...

...Silêncio...

- Sim... Já me vou...

...Silêncio...

- Só algo mais para incluir... É sábio não retornar?
- Sentirás tranqüilo se assim fizer por não precisar.
- É belo amar?
- É hipócrita simular não amar...
- Não quero mais fazer assim... quando estarei pronto?
- Nunca estarás...

...silêncio...

- Precisas ir...
- Sim, eu preciso...

16.4.08

O milagre de Valentina




 
Valentina toma chá de fumaça rosa e voa de balão no céu xadrez.
Valentina recita poesias para os patos e rema no lago verde sentada em um guarda-chuva.
Valentina usa gravata no pescoço e um lenço vermelho no cabelo, gargalha e chora ao ler palavras novas no dicionário.
Enquanto Valentina brinca no balanço ruidoso em transe ela conta seus segredos para a chama da vela no castiçal enferrujado.
Valentina quando boceja conta os botões do seu vestido. Ela assopra bolhas de sabão enquanto lê notícias no jornal.
Valentina joga damas com o gato de cachecol e costura retalhos para cobrir o seu jardim de trevos no inverno.
Valentina coleciona garfos de dentes tortos e assiste por horas a mariposa beijar o lampião.
Valentina guarda seus coloridos torrões de açúcar no sapato camurçado, velho e esquecido em baixo de sua cama.
Valentina não vai a escola... Valentina não vai a igreja.
Valentina dorme com as mãos no bolso do pijama, onde guarda o seu sentido de exisitir, segura apertado com suas mãos o seu grande milagre.
O milagre de Valentina é um dia dormir e acordar azul.

3.7.07

Ácido Gástrico


Quisera eu apoderar-me do teu cinismo inútil!
Arrancando-o pelos minúsculos orifícios da sua casca,
desobrigando o seu feitio desta sujeição indecorosa.

Conteria em ti o fluído da sua essência
com a mesma valentia de quem até então presume uma fé qualquer.

Contemplaria o falecer do seu Eu seco,
resgatando por detrás da pele do engenho da sua alma
a legitimidade que vaza pela úlcera da sua indolência...

Se pequei... pequei porque renunciei.
Renunciei por não mais inventar encantos que morassem
entre nossas tramas...
Por não mais inventar presunções
que desprezassem o sublimar do Ser...

Esse platonismo que aprisionaste
ao que sentes como genuíno, estarrecido
deixo pra ti como sentido vão.
E quando minhas pupilas
chocarem-se com o fantasma dos seus intentos,
considere tal gesto como meu propósito inevitável de compaixão publicada.

16.5.07

Um existir espontâneo...


Os eruditos e virtuosos,
calcularam a sua proeza,
pesaram sua sensatez.
Ele foi então considerado desapropriado para ser...
Ele foi então descartado do subsistir...
Sem ânimo porém vivo,
enfeitou-se de palavras abandonadas...
Enfático porém legítimo
entrelaçou com cuidado o seu imaginário delicado
com absurdos floreados,
tornou-se um paranóico emergido.
Enfim, lá estava ele liberto para estar.
Dialogou assim com seus mistérios,
emoldurou seus pensamentos,
plastificou seus versos,
esticou-os sobre a elegância de finos panos,
embrulhou bonito,
decorou com a graça das fitas...
e presenteou com doçura
sua amada “Ignorância”...
que sobre um ovular desatado
entregou-se graciosa
preservando a genuína vida
que adornava a fé no existir espontâneo...

26.4.07

INSANO





Insanos devaneios viciosos,
assentados no pó envaidecido
da potencialidade do meu orgânico ser...

Insana realidade que elegi, estiquei e descansei
no plano do consenso e da autenticidade...
Assegurando prudência suficiente
para assim não tolerar ventos de um abanar de leques insensatos
que destelham conceitos encarnados em bolhas efêmeras...

Insano repouso extasiado aos pensamentos
entregue ao perigo de suicídio do sentido...
Entre sintomas de ruptura com a estabilidade,
escolho vulgarizar a sensibilidade extrema.

Insana civilidade que me pede ordem e progresso
para que assim eu honre ao mérito por dizer
respeito a um tumulto imóvel
ordenado pela libido vergonhosa.

Insana angústia que não estanca a espontaneidade
líquida das horas...
O que muito me ilude muito distrai
a firmeza do meu ânimo...

Insana essência pura corrompida
pelo medo determinável do falível...
Insana segurança...

14.4.07

Morra Belo!!!



Morra Belo....
morra agora e não depois...
Morra sublime...
Morra sua alma até a ponta dos fios de seu hálito...
Morra Belo,
e leve consigo sua nobreza arrogante de anestesiar o apático contemplar...
Não geres mais insinuações parindo o feio...
Não fabriques mais o ridículo gargalhando das condições insuportáveis do escárnio...
Morra agora e não depois...
Porque depois de ti estarei inclinada para sempre ao seu mal...
Depois de ti, o singelo derreterá o espontâneo...
Morra agora... e leve consigo sua traiçoeira humildade...
Não mais assassines poetas e artistas...
Não mais subornes a índole dos sábios...
Não mais dissimules tua hipocrisia se convertendo em sagrado...
Não mais me dissolvas regrando a estética prática...
Não finques mais essas suas unhas sujas de beleza...
Não me lances mais seus desvios perversos...
Nada lhe devo, Belo!!!
Morra.. morra agora e não depois...

Dona Chica...não vais nunca admirar-te com meus berros...



A minha tendência é a tranqüilidade do limo quente de um envelhecido telhado...
Mentirosa prepotência felina que finjo em um olhar...
Não simulo afeto mas não descalço minhas unhas para amar...
No estreito e no curto... no extremo viro suas latas....viro todas...
Tombo-as com toda nobreza existente... remexo o que despercebido e por conveniência foi chamado lixo....
Conheço as diversidades de afago....
Conheço os detalhes dos movimentos de cada dedo humano...
Alguns por habilidade sabem deslizar e brincar com meus cantos...
Outros desconhecem e logo descobrem onde me nego ser tocada... demonstro em uma simples esquiva....
Uns sabem o quanto de tempo gosto de ser afagada....
e aos que não sabem escorrego ao menor descuido e vou-me pelos menores, inesperados e dos até que se desconheciam como vãos...
Às vezes volto...
converto-me ao meu ócio...
quando desencontro minha paz eu improviso e faço meu tempo...
dispenso proteção.... rendo-me mas não peço socorro...
não peço condições...
conduzo os meus movimentos porque a eles eu pertenço....
o que possuo de mais belo não favorece o gênero humano....
Às vezes chego, sento, banho-me com a minha hábil língua e retiro os rastros que me deixaram quando tentei não ser percebido...
Alguns me adjetivam como limpo animal, onde entre olhos fechados lambo meus detalhes e fico suficientemente higienizada para deitar-me em uma cama qualquer... incrível como isso para alguns basta....
Descrito como organismo dependente de predação, apenas brinco com minha comida e finjo vontade de ser cruel...
A coreografia dos meus gestos e olhares são respostas da minha majestade recolhida na minha compostura...
Minhas únicas reverências são para os meus próprios momentos....
Solitário não, apenas por conveniência por vezes nego companhias...
Indiferença apenas àqueles que nem ao menos merecem meu rancor....
Leviana, ordinária de alma... domesticada... deixem assim pensar...
Dona Chica, não vais nunca admirar-te com meus berros... entre violências e indeterminadas vidas não morri... transgredi... transcendi...